Boleia Arriscada 

de Stephen King

 Stephen King apresenta em Boleia Arriscada uma compilação de 14 contos de terror e suspense. Bem elaboradas, as histórias são autónomas, com destaque para temáticas de fantasia, terror e suspense, todas com fortes componentes psicológicas.

 Destaque para Tudo o que Amamos nos será Tirado, uma história que gira em torno dos escritos que estão grafitados nas casas de banho dos motéis das intermináveis estradas da América rural. Este é o cenário perfeito para a história de Alfie Zimmer, o protagonista. Neste quadro, um tanto nostálgico dos anos 50 e 60, Stephen King explora e desmistifica o "sonho americano". King pinta cenários de "estradas interestaduais em que não vemos senão pradarias e uma área de descanso de sessenta em sessenta quilómetros", motéis nos quais "as casas de banho estão cheias de grafítis, alguns muito estranhos". O próprio autor é um colecionador destas frases e o título deste conto é exatamente uma frase que o personagem principal encontra num destes recônditos lugares.

 "Fez um asterisco junto à segunda entrada, «Tudo o que amamos nos será tirado (WALTON NEB)», traçou um risco cinco centímetros acima do fundo da página e escreveu."

 Aos poucos e poucos, o leitor vai-se entranhando neste universo desconcertante à medida que acompanha as ações de um homem desesperado. As únicas razões que o mantêm vivo são a mulher, a filha adolescente e o caderno onde aponta as frases que encontra nos motéis.

 Estas frases são um misto de obsceno com devaneios incoerentes, alguns poéticos mas sempre a roçar a sexualidade.

 "Folheou as páginas escritas com mais de cem canetas (e lápis) diferentes, detendo-se para ler algumas delas. Uma dizia: «Chupei a pila ao Jim Morrison com a minha boquinha de rapaz (LAWRENCE K S).» (...) A única coisa que se recordava bem da escola era do pentagrama jâmbico: «Ser ou não ser, eis a questão.» Vira isso na casa de banho dos homens na I-70 (...) onde alguém acrescentara: «A verdadeira questão é saber quem foi o teu pai, idiota.»"

 Alfie refugia-se nos cigarros e nas frases que coleciona para combater a melancolia e frustração em que a sua vida se transformou. O que realmente gostava era de ser escritor e de fazer um curso para entender melhor a versificação.

 O livro peca por deixar a maior parte dos contos com o fim demasiado aberto. Há exceções, como Sala de Autópsias Número Quatro, uma alucinante corrida contra o tempo que deixa os leitores impotentes face aos eventos descritos ao longo das páginas. É outro grande destaque desta compilação e descreve de forma pormenorizada uma autópsia a um cadáver que ainda está vivo. O autor explica que desenvolveu esta história a partir de um episódio da série do cineasta Alfred Hitchcock, apelidado por muitos o "mestre do suspense".

 Stephen King consegue ser bem macabro nos enredos e estes 14 contos não fogem à regra. O leitor vai-se arrepiar entre quartos de hotel assombrados, dúvidas existenciais, banhos de sangue, sociedades secretas, boleias arriscadas e aparições fantasmagóricas. Em contraponto, King explora criativamente o conteúdo tirando a banalidade a estas temáticas cortejando o leitor com fortes doses de ironia e comédia negra.

 São estas as características que o tornam um escritor tão especial e um dos maiores contadores de histórias da atualidade. 

Francisco Sousa Faria da Silva