O Visconde de Bragelonne 

Alexandre Dumas

 Alexandre Dumas assina em O Visconde de Bragelonne o monumental épico que conclui a saga dos mosqueteiros.

 Esta obra densa e romanesca rivaliza com Os Miseráveis de Victor Hugo no que toca ao número de páginas, com mais de 1200! De forma pormenorizada e quase exaustiva, Dumas transporta os leitores para a França da segunda metade do século XVII.

 Luís XIV atingiu a maior idade há pouco tempo e à semelhança de seu pai, o jovem rei não passa apenas de um joguete nas mãos do seu primeiro-ministro, Mazarino.

 É a guerra de poder entre o jovem monarca e este hábil italiano que Dumas tão bem ilustra na primeira parte da obra. O rei não passa de um adolescente facilmente manipulado, perdido num pequeno romance com a jovem Maria Mancini, sobrinha de Mazarino e que o desvia dos deveres da governação.

 Estes eventos são seguidos pelo olhar atento do mosqueteiro d'Artagnan que, dececionado com o rei e o rumo do país, demite-se e parte em busca dos seus velhos amigos e companheiros de armas.

 Athos, Porthos e Aramis, os famosos três mosqueteiros são agora homens envelhecidos e um tanto desenquadrados da evolução sociocultural que os rodeia.

 A narrativa é lenta e à medida que vamos redescobrindo os três mosqueteiros, várias histórias cruzam-se e justapõem-se. Depois da Restauração Inglesa e de uma inteligente investida de Athos para culminar este assunto, segue-se a ascensão do jovem rei francês após a morte de seu primeiro-ministro. Entretanto d'Artagnan descobre uma fortificação numa ilha remota no golfo da Gasconha, próxima da costa da Bretanha. A ilha, de nome Belle-Île-en-Mer pode colocar em risco a paz do reino. É na sequência desta narrativa que começam as conspirações e as intrigas na corte.

 Aramis, agora bispo de Vannes, guarda um segredo de Estado: nos calabouços da Bastilha encontra-se incógnito Filipe, irmão gémeo de Luís XIV. Aramis, General da Ordem dos Jesuítas, pretende tirar toda a vantagem deste rapaz inocente. Conta com Porthos para o ajudar a substituir o rei por Filipe, podendo assim controlar a regência da França. Segue-se o episódio de O Homem da Máscara de Ferro e mais uma vez a amizade dos quatro mosqueteiros é posta à prova quando d'Artagnan, na qualidade de capitão dos mosqueteiros, tem de perseguir os conspiradores. A amizade acaba por falar mais alto, não antes de sucederem trágicos eventos.

 Apresentam-se personagens históricos como Fouquet e Colbert, inimigos declarados, e desenvolve-se o caráter destrutivo da heroína da história, Louise de La Vallière. Esta bela rapariga loura vai ser a desgraça de dois personagens principais. É a noiva de Raoul, visconde de Bragelonne, o jovem e corajoso filho do mosqueteiro Athos.

 Neste romance, Raoul é a personificação da juventude dos quatro mosqueteiros. É um personagem com os valores de conduta dos velhos tempos. Alexandre Dumas deixa bem claro que os ideais antigos estão à beira da extinção, dando lugar à injustiça social, egoísmo, mesquinhez, hipocrisia e traição.

 Louise de La Vallière não é comparável à pérfida Milady de Winter mas não deixa de ser cruel à sua maneira, principalmente no que toca à traição no amor proferido pelo seu noivo. La Vallière deslumbra-se com Luís XIV e parte o coração a Raoul de Bragelonne. Mas a sua consciência acaba por falar mais alto.

 "Uma mulher orava de joelhos sobre aquela terra húmida. Viu-a bater no peito com a compunção da mulher cristã. Ouviu-a proferir muitas vezes este grito arrancado de um coração lacerado:

- Perdão! Perdão!

D'artagnan, tocado por este amor aos seus amigos tão chorados, deu alguns passos para a sepultura, a fim de interromper aquele sinistro colóquio da penitente com os mortos.

(...) a desconhecida levantou a cabeça e deixou ver a d'Artagnan um rosto inundado de lágrimas, um rosto amigo.

Era a menina de La Vallière! (...)

- Sr. d 'Artagnan! - murmurou ela

- Aqui minha Senhora?! - respondeu o capitão com voz sombria.

- A notícia chegou ontem à corte. Venci, desde ontem à noite, quarenta léguas para vir pedir perdão (...).

- Repetir-lhe-ei, minha Senhora - disse d'Artagnan -, o que me disse em Antibes o Sr. de Bragelonne (...): «Se o orgulho e o coquetismo a arrastaram, perdoo-lhe, jurando-lhe que ninguém a amaria mais que eu.»

- (...) hoje já não tenho nada que desejar; (...) porque já não ouso amar sem remorsos, e porque, bem o pressinto, aquele a quem amo me causará a dor que eu fiz sentir aos outros."

 As intenções de Dumas são claras quando joga com todas estas personagens, centrando-as no processo de amadurecimento do rei Luís XIV. O rei é apresentado como um jovem rapaz amedrontado e traumatizado com a infância, seguindo o leitor o seu percurso até ao homem que finalmente erradicou os seus ministros e tomou o poder absoluto para si. "O Estado sou eu."

 O tom melancólico da narrativa acentua-se cada vez mais à medida que se desenvolve a história do mosqueteiro Athos. O conde de La Fère é agora um velho ancião, débil e cadavérico, perseguido pelas memórias da condessa de Winter e de Mordaunt, o filho de Milady que aparece em Vinte Anos Depois Depois e que Athos tem quase a certeza ser também seu. De tudo o que este gentil-homem já sofreu, é em O Visconde de Bragelonne que o antigo líder dos mosqueteiros tem a sua derradeira batalha!

 No meio deste turbilhão de acontecimentos e emoções o leitor chega às últimas páginas da história resignado com o destino de Athos, Phortos e Aramis. D'Artagnan quer acreditar que a amizade e o seu lema: "Um por todos e todos por um!" ficarão para sempre imortais nas páginas do tempo.

 "Atrás da capela estendia-se, fechado por aveleiras, sabugueiros e espinheiros, cingindo por um fosso profundo, o pequeno cerrado inculto, porém risonho (...) porque debaixo dos castanheiros surdia uma larga nascente de água (...) enquanto os tentilhões e os cardeais cantavam alegremente sobre as flores. (...)

 D'Artagnan, ficando só, notou que a noite se avizinhava. Tinha esquecido o tempo, pensando nos tempos."

Francisco Sousa Faria da Silva