Apagão

07-03-2018

Photo by Teun van der Lugt on Unsplash
Photo by Teun van der Lugt on Unsplash

 Apagão é um conto da minha autoria que pretende abordar questões atuais sobre as novas tecnologias e práticas sociais das novas gerações. 


 A média de imagens que a nossa perceção visual retém por dia é de 10 mil. Quando Ivo deu por si isolado no meio do nevoeiro de um local escuro e desconhecido sem saber como ali tinha ido parar, a primeira coisa que o seu cérebro fez foi disparar-lhe imagens com possíveis explicações.

 Era difícil acalmar-se, principalmente para um rapaz de 17 anos. Aquele lugar era sinistro e dava-lhe arrepios. De olhos arregalados examinou o local, inundado pela neblina. A luz vinha do chão, misto de areia com cimento que brilhava em tons vermelhos.

 Ivo tinha apenas uma certeza. Estava ali por causa do apagão que se deu durante a palestra do escritor e cientista Sebastian Knight.

 Naquele instante, os fragmentos da manhã escura daquele dia chuvoso de outubro surgiram-lhe nas linhas do pensamento. Lembrava-se perfeitamente de ter chegado ao auditório da escola, submergido pelas turmas de 12º ano. Humanidades, Ciências, Artes e Desporto, uma Torre de Babel reunida para uma palestra sobre literatura portuguesa.

 Depois de se sentar nas últimas filas e consultar o telemóvel, Ivo deu uma rápida olhadela em redor. As mesmas caras, os mesmos risos selvagens, as mesmas piadinhas secas.

 Ivo só despertou quando os seus olhos encontraram Mariana. O rapaz engoliu em seco. A rapariga estava sentada nas primeiras filas e falava com os colegas.

 Não podiam ser mais diferentes, até nos cursos, ele de Desporto, ela de Artes. Mariana era uma rocker excêntrica, sempre pronta a discursar filosofia e novas tecnologias. O seu cabelo loiro destacava-se na figura elegante, sempre vestida de cabedal escuro.

 Ivo era mais discreto, o português típico, um misto de sonhador e de homem de ação.

 A presença de Sebastian Knight não foi o suficiente para acalmar o auditório. Ninguém parecia querer largar os telemóveis, a troca de SMS, os likes e tweets.

 Ivo não se lembrava de mais nada mas foi precisamente o seu caráter lusitano que o encorajou caminhar na penumbra. Metros à frente, a areia estremeceu e uma figura humana emergiu das profundezas. Enquanto os grãos deslizavam pelo corpo do espetro, os olhos de Ivo arregalaram-se quando dois braços lhe pousaram nos ombros.

 O cadáver vestia uma imponente armadura dourada e nas costas pendia um escudo antigo e poeirento.

   - Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo! - exclamou a voz rouca do espetro, estendendo-lhe o escudo. Ivo pegou no objeto, meio aparvalhado.

 A terra estremeceu. Ivo equilibrou-se à medida que o solo se erguia em penhascos e espalhava os grãos vermelhos para o abismo. O cadáver desfez-se. De seguida, o som vibrante e cantante da água salgada do mar embateu com força nos penedos. O rapaz agachou-se e protegeu-se. Soou então um grito de mulher e Ivo não queria acreditar no que via.

 No meio das ondas ergueu-se uma vil criatura, de feições pesadas, olhos negros e revirados. Pela boca escorria um líquido viscoso e escuro. Os seus braços longos e arqueados prendiam Mariana. Estava meia consciente. A criatura deu uma gargalhada e lançou investidas de água sobre o rapaz.

O coração de Ivo batia como o de um leão selvagem em plena liberdade. Mas a liberdade conquista-se dentro de um conjunto de regras. Juntou todas as suas forças e levantou-se ao mesmo tempo que o mostrengo o bombardeou com raios fulminantes.

 O rapaz defendeu-se com o escudo, invertendo as faíscas na direção do seu inimigo. O mostrengo grunhiu de dor ao mesmo tempo que o corpo sucumbido despareceu nas profundezas do oceano.

 Ivo correu para Mariana. A rapariga tombou-lhe nos braços, de cabeça descaída. Sorriu-lhe em agradecimento e quando estavam prestes a beijar-se um enorme clarão branco envolveu-os.

 Ivo gritou e quando abriu os olhos deparou-se no auditório. Iluminados pelas luzes, tanto ele como os colegas se mostravam ofegantes, questionando o que lhes tinha acontecido.

 Sebastian Knight estava de pé, com um sorriso de orelha a orelha.

   - Agora que tenho a vossa atenção, podemos começar? - perguntou, mostrando um livro. Na parte superior, o título: Mensagem.

 Knight foi inundado por perguntas. Bastou um simples plug in do seu projeto para que todos os telemóveis ligados emergissem os seus espetadores no mundo digital do livro que iam debater. O apagão era a ponte, o que permitia que se acreditasse.

    - Cada um criou o seu mundo e apenas experienciaram passagens do livro de forma não linear - acrescentou Knight. - É pouco provável mas é possível que alguns se tenham encontrado. Teriam de ser opostos mas mesmo assim estar em sintonia. Não é fácil.

 No meio do burburinho, Ivo e Mariana trocaram um sorriso, a chave do seu segredo.

 Depois, a rapariga levantou o dedo e perguntou:

    - Devemos preocupar-nos mais em sermos humanos ou sermos digitais?

 Sebastian Knight abriu o livro e respondeu:

    - Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.


Francisco Sousa Faria da Silva © 2018