Curtiz e Casablanca

24-02-2018

Dois realizadores, um filme

 Em setembro de 1937 decorreram as filmagens do filme mais caro da Warner Brothers até então - As Aventuras de Robin dos Bosques. Filme em technicolor, com um elenco de luxo (Errol Flynn, Olivia De Havilland, Basil Rathbone, Claude Rains, entre tantos astros da época). A produção tem como objetivo principal desmistificar o estúdio da elevada conotação com os filmes de gangsters

 William Keighley toma o comando do projeto mas os produtores não ficam satisfeitos com os resultados apresentados nas primeiras semanas e mudam de realizador.

 O húngaro Michael Curtiz foi chamado para continuar o filme e moldou, refez e alterou várias sequências significativas (exemplo da sequência em que Robin e o seu bando fazem uma emboscada à comitiva onde viaja o vilão Sir Guy e a Lady Marion). Toda a cena parece saída de um bailado e está ritmada ao pormenor com as notas vibrantes da música, assinada por Erich Wolfgang Korngold.

Contraste de estilos: Americano e Europeu

 William Keighley era americano e tinha uma visão muito própria e típica de Hollywood naquela época. Trabalhou na Broadway, realizou comédias e era o grande nome dos filmes de gangsters. Realizar um filme de época foi um desafio que não conseguiu à primeira. Por outro lado, Curtiz já se aventurara nesse género com o Capitão Blood, realizado em 1935 e pelo qual recebeu nomeação para melhor realizador. 

 Em "Robin dos Bosques" fez mudanças, todas elas significativas, principalmente nas sequências de ação: recorreu à expressividade dos movimentos e às grandes sombras projetadas nas paredes, técnica usada com abundância no movimento expressionista alemão nos anos 20. Contudo, ao contrário de Keighley, não se preocupava nada com os personagens. Interessava-lhe a ação e os espaços onde esta decorria. Esta característica agradou aos produtores.

"(...) quem se importa com os personagens? Faço o filme avançar de forma tão rápida que ninguém se importa com eles."

 As Aventuras de Robin dos Bosques estreou nos Estados Unidos no dia 14 de maio de 1938 e dois anos depois em Portugal, no dia 19 de dezembro de 1940. Êxito estrondoso na época, recebeu vários prêmios, incluindo o de realização.

Quem foi Michael Curtiz?

 O seu nome verdadeiro era Manó Kertész Kaminer e nasceu em Budapeste em 1886. Contudo a sua data de nascimento é questionável pelo facto de Curtiz gostar de inventar e alterar factos sobre a sua vida. Era um contador de histórias e o seu passado era como um filme em pós-produção, sujeito a cortes e adição de novas sequências. Diz que na sua juventude fugiu de casa e que se juntou a um circo. Percorreu o mundo em busca de romance e aventuras. Chegou inclusive a fazer parte da seleção húngara de esgrima e representou o seu país nos Jogos Olímpicos de verão de 1912.

 Os factos apontam para que tudo isto fosse mera imaginação e que na realidade teria tido uma vida normal sem peripécias tão romanescas. Formou-se na Universidade de Markoszy e posteriormente estudou na Academia Real do Teatro e Arte, ambas em Budapeste.

 Começou por ser ator e depois interessou-se pela encenação. Assinava os seus projetos com um pseudónimo: Mihály Kertész.

 Em 1912 realizou o seu primeiro filme, Ma és holnap (Hoje e amanhã), interpretado por Gyula Abonyi Jenoné Veszprémy. Também participou no filme como ator.

 Realizou alguns filmes na Dinamarca e depois mudou-se para Hollywood no princípio dos anos 30. Aí começou uma carreira promissora na Warner Brothers. Mudou o seu nome para o qual é conhecido hoje e assinou êxitos cinematográficos. Ganhou um óscar à sua terceira nomeação. O ano era 1942, o mundo estava em guerra e o filme chama-se Casablanca.

Casablanca

 A famosa cena de despedida entre Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman) no final do filme é uma cena clássica e carismática, ícone cinematográfico.

 Será justo dizer que o filme é a obra-prima de Curtiz?

 Casablanca retratava a atualidade de forma arrogada e crua, contrastando a história romanesca e fatalista do trio principal. E quando menos espera, o espetador dá por si a ouvir o hino nacional francês ou o tema musical As time goes by de Herman Hupfeld.

 Curiosamente, a primeira opção para realizar Casablanca foi William Wyler mas estava indisponível na altura.

 Foi Wyler quem recomendou Curtiz. 

Curtiz pós Casablanca

 Apesar do estrondoso êxito, a sua carreira começou a declinar e o realizador foi caindo no esquecimento a partir do início dos anos 50. Muitos afirmam que Michael Curtiz está para o cinema de aventuras como John Wayne está para o western.

Um dos seus últimos filmes mais significativos foi realizado em 1960 (As Aventuras de Huckleberry Fynn), uma adaptação da obra de Mark Tawin.

Curtiz hoje

 Hoje em dia o trabalho de Michael Curtiz resume-se principalmente a uma obra. A verdade é que antes de realizar Casablanca, Curtiz tinha já assinado inúmeros filmes, todos eles artisticamente notáveis.

 Ao todo realizou mais de 150 filmes.

© Francisco Sousa Faria da Silva