Portugal Hoje

30-03-2018

 Tiago Morais Onofre partilha a sua visão sobre Portugal. A poesia de Onofre é amarga, por vezes crua e nunca politicamente correta. São apresentados mistos da realidade atual com referências históricas e doses controladas de ironia e humor negro.

 Gostei particularmente do Velho do Restelo, que sem nunca desistir de procurar a sua pátria, confunde Sebastião com Ronaldo.

 Para refletir...

Francisco Sousa Faria da Silva © 2018


Portugal hoje

Tiago Morais Onofre

Portugal... 

O que queres de mim?

Em país disforme e atípico te transformaste.

Onde estás? Será este o teu fim?

Responde...

Sinto a tua raiva em salpicos salgados de ódio.

Ouço o grito da tua despótica e perdida gente,

Mas não te consigo ouvir.

Estarás assim tão indiferente?

O Velho do Restelo também te procura.

Demente e cada vez mais valdo,

Pobre logrado!

Que acredita que Sebastião é Ronaldo.

Diz que vai cortar as barbas brancas:

Vastas linhas do tempo

Esquecidas e saudosas.

Frágeis mas valiosas.

O nosso fado é este.

Reina a política manhosa e a avidez.

Foi nisto que te transformaste, Portugal?

Ódio, futebol, inveja, e mesquinhez!

O capitalismo selvagem matou a Arte!

A Arte de viver, a Arte de ser português.

Dinheiro! Desemprego, números, estatísticas...

Disseste algo? (Pareceu-me ouvir-te)

Portugal, responde por favor...

Onde estás? Desliga o telemóvel e ouve-me!

Não quero que me respondas pelo Facebook ou pelo Twitter.

Quero encontrar-te cara a cara neste caminho pantanoso:

Quero olhar-te de frente,

Nem que para isso tenha de ser engolido pela terra.

Seja! Se morrer, outro que tente!

Mas peço-te, dá-me a mão.

Todos se atropelam

Portugal! Ouve a minha amarga súplica

E conceder-te-ei perdão.