Referências, apropriação e remix

14-04-2018

 Enquanto nos primórdios do cinema a literatura dominava temas e referências, nos dias de hoje a tendência é revisitar filmes do passado como processo criativo e concetual. Acrescento também de uma forma não oficial que há uma certa procura por nostalgia. O livro como fonte de criação e apropriação ainda tem peso significativo mas já começa a perder terreno.

 Avatar, realizado em 2009 por James Cameron é um bom exemplo. Cameron é um realizador que desenvolve meticulosamente os seus projetos, aliados sempre ao uso da mais recente tecnologia. Avatar é uma obra visualmente estimulante, rica em detalhes e admirável em pormenores gráficos e tecnológicos. Contudo, ao contrário da componente visual, a história não nos apresenta nada de novo. O espetador mais atento encontra facilmente paralelismos e referências a Danças com Lobos, Braveheart e Pocahontas da Walt Disney.

"Avatar" e "Pocahontas"
"Avatar" e "Pocahontas"

 Mad Max: Estrada da Fúria (2015) é uma experiência cinematográfica nova que consegue de forma muito competente elevar a fasquia da tendência fílmica atual. O realizador George Miller traz de volta o seu herói neste reboot não oficial da sua saga dos anos 80. É uma obra cinematográfica que se destaca pela sua originalidade, ousadia e um certo toque shakesperiano.

 O remix está presente mas não de forma excessiva. Contudo não deixam de existir referências aos filmes originais ou ao clássico Stagecoach (1933) com John Wayne e nunca antes uma ópera de Verdi soou tão bem num filme.

 Como já foi dito, a saga Star Wars deve muito aos filmes de Akira Kurosawa. O segundo filme da nova trilogia, Os Últimos Jedi, realizado em 2017 por Rian Johnson, é um bom exemplo dessa tendência.

 O confronto ideológico entre Luke Skywalker e o vilão e seu sobrinho Kylo Ren é uma referência notável a Rashomon - Às Portas do Inferno de Akira Kurosawa. Já o confronto final entre estas duas personagens homenageia também o cinema japonês com claros paralelismos com Yojimbo, o Invencível (1961) e Rurouni Kenshin (1996).

 Claro que a fonte literária também está presente, com referências diretas às obras de Thomas Mallory sobre as lendas arturianas e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Em Os Últimos Jedi, o confronto final não é nada mais nada menos que o episódio de Mordred contra Artur.

Confronto final em "Os Últimos Jedi" (2017)
Confronto final em "Os Últimos Jedi" (2017)
"Rurouni Kenshin" (1996)
"Rurouni Kenshin" (1996)
"Excalibur" (1981)
"Excalibur" (1981)

 São muitas as referências que o filme faz a outras obras cinematográficas, como Casablanca (1943), Asas (1927), A Ponte do Rio Kwai (1957), Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes, Citizen Kane - O Mundo a seus Pés, entre outros.

 Nesta linha de pensamento recordo que já nos anos 80, George Lucas dizia que as referências são importantes. Lucas afirmou também que não está em questão o facto de uma ideia já ter sido desenvolvida. O importante é como a reciclamos e adaptamos ao universo da história que queremos contar.

 Estas afirmações foram feitas no contexto do filme Indiana Jones e O Templo Perdido, segundo filme da saga realizado em 1984. As referências aos filmes serials dos finais dos anos 30 e inícios de 40 estão todas presentes. Lucas e Spielberg criaram assim um novo herói com sólidas bases em Zorro Rides Again (1937) e Zorro's Fighting Legion (1939).

"Zorro Rides Again" e "Os Salteadores da Arca Perdida"
"Zorro Rides Again" e "Os Salteadores da Arca Perdida"

 Curiosamente, quando o novo filme do Zorro estreou em 1998, foi já buscar inspiração não só a muitas sequências de Indiana Jones como também aos próprios serials e séries de TV, com grande destaque para a da Walt Disney, com Guy Williams no papel principal. Em A Máscara de Zorro podemos encontrar um mundo spielberguiano e reviver os antigos clássicos do género de aventuras. Como em Star Wars, também recicla a literatura e o Monte Cristo de Alexandre Dumas marca presença inevitável.

"A Máscara de Zorro" (1998)
"A Máscara de Zorro" (1998)

 Já em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), o remix vai aos anos 50, época da narrativa. O filho de Indiana Jones é um misto de ícones dos anos 40 e 50. Mutt Williams enverga um casaco de couro à la Marlon Brando, possui maneirismos de James Dean, penteia-se à Elvis Presley e luta com a espada como Tyrone Power em O Sinal do Zorro (1940), que muito possivelmente viu num re-release no cinema em criança.

 "O Sinal do Zorro" (1940) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008)
"O Sinal do Zorro" (1940) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008)

 O conceito criativo do remix enaltece o processo de realizar um filme mas é necessário prudência na mescla. O objetivo é criar um novo conceito com que o público se identifique e não uma cópia!

Francisco Sousa Faria da Silva © 2018