"Ela debruçou-se e beijou-o depressa no rosto. Por vezes beijavam-se nos lábios mas não era aconselhável."

Onze Tipos de Solidão 

Richard Yates

 Esta coletânea de histórias ilustra de forma perfeita os meandros da sociedade americana da década de 50, pré e durante o American Dream. O que liga estas narrativas é precisamente a alienação das personagens, tão reais que o leitor consegue sentir vincadamente a sua solidão, as dores da alma e as frustrações.

 Yates desenvolve histórias fascinantes sobre pessoas de várias faixas etárias e classes sociais. Logo no primeiro conto, Doutor Chacal, o leitor consegue sentir-se comovido com o pequeno Vinny. Richard Yates é um mestre na forma como constrói todo este personagem para quando menos esperarmos, darmos connosco a sentir uma grande empatia pela criança. O mais caricato é a desconstrução que se segue.

 Há um tom irónico, sempre presente nos contos. Em O melhor de tudo emergimos numa luta interior de um jovem casal prestes a unir-se em matrimónio. Ambos se sentem presos nos seus estilos de vida. 

 A forma como Yates trabalha o papel da mulher naquela época é de louvar. Apesar do autor respeitar a realidade, a verdade é que não se esconde em estereótipos.

 A Myra de Sem Dor Nenhuma é um flagrante exemplo. Tem o marido internado há quatro anos com uma doença pulmonar grave e visita-o todas as semanas ao domingo. Tudo o que Myra e o seu marido tinham esvaneceu-se e agora restam apenas estas pequenas horas de visita. Myra faz tudo isto de forma mecânica e Harry está apático, preferindo ler artigos de jornal ou da revista Life a falar com a esposa. Até um pequeno beijo nos lábios lhes é proibido.

 "Ela debruçou-se e beijou-o depressa no rosto. Por vezes beijavam-se nos lábios mas não era aconselhável."

 Claro que uma jovem mulher como Myra não consegue aguentar uma situação de tais proporções e por isso mesmo refugia-se em Jack, um "homem demasiado atarracado e pesado", o contraponto de Harry. Para além da desvantagem física, Jack é uma pessoa oca, desprezível e insensível. A única coisa que quer de Myra é sexo e esta, sentindo-se completamente perdida e sozinha, consente. Momentos depois de ter visitado o marido e de ter chorado de frustração, esta mulher entrega-se de corpo e alma a este homem, numa tentativa desesperada de recuperar o irrecuperável.

 "Mergulhados num beijo, Jack fez deslizar a mão dentro do casaco dela, metendo-a depois habilmente debaixo da outra roupa até lhe segurar o seio. (...) As mãos de Myra agarraram-se às costas de Jack e ali ficaram. Depois ela deixou-se voltar para que a outra mão dele lhe subisse secretamente pela coxa."

 Em O Sofredor, o autor explora paradoxos do ser-humano. O que se pode esperar de um personagem que tira prazer em tudo o que lhe corre mal na vida? E ainda por cima faz por isso, muito possivelmente de forma consciente.

 Yates é um observador nato, sempre com o olhar atento aos detalhes. Por isso é que o leitor consegue emergir numa história contada por este escritor. Mesmo a que à partida pareça ser a mais banal de todas as histórias ou a mais banal personagem.

Francisco Sousa Faria da Silva